Os incidentes envolvendo ataques de tubarões a banhistas nas praias urbanas de Pernambuco, nos últimos dias, vêm causando importante comoção pública. Estas ocorrências apontaram a necessidade de ação ainda mais enérgica dos governos do estado e municípios mais afetados, de modo evitar novos acidentes. Desta forma, o Conselho Regional de Medicina Veterinária de Pernambuco (CRMV-PE), e a Comissão de Animais Silvestres e Meio Ambiente, vem manifestar publicamente seu apoio às ações estaduais e municipais de prevenção de novos incidentes com tubarões e humanos, e por meio desta nota, transmitir informes importantes aos médicos veterinários e zootecnistas, bem como à população em geral.

Tubarões são peixes elasmobrânquios, predadores de topo da cadeia alimentar dos mares, e sempre estiveram habitando os oceanos, desde antes do surgimento da espécie humana. Em Pernambuco, os registros de incidente com tubarão datam desde o século passado. Diversos estudos passaram a ser realizados, tendo sido identificadas, pelo menos 5 espécies na costa Pernambucana, dentre as quais apenas 2 têm sido envolvidas nos incidentes com banhistas e praticantes de esportes aquáticos: o tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas) e o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier). Ambas são espécies de grande porte, com adultos tendo em média 3 a 4 m de comprimento, e sendo ambas, importantes controladores de inúmeras espécies animais vertebradas e invertebradas, que fazem parte da sua dieta natural em diversas fases de desenvolvimento destes animais. Além do controle de populações de outros animais, outra função ecológica exercida pelos tubarões é o consumo de carcaças de animais mortos, especialmente de grandes animais como baleias, golfinhos e tartarugas, evitando assim a poluição dos oceanos e a disseminação de doenças.

Os incidentes com seres humanos no litoral pernambucano vêm ocorrendo por uma associação do comportamento predatório natural destas duas espécies, que quando jovens costumam se aventurar em águas rasas, associado à topografia propícia do litoral nas áreas de maior risco, com a existência de canais profundos que os tubarões usam em seus deslocamentos normais ou rotas migratórias. Estes fatores, possivelmente vêm sendo potencializados pelos impactos ambientais provocados por construções industriais na orla, que modificaram a estrutura física do habitat dos tubarões mais jovens que geralmente são os mais envolvidos nos ataques, provocando seu deslocamento em busca de outro ambiente propício à sua sobrevivência. 

Na região onde os ataques ocorrem, existe uma dinâmica de praia propícia para que os tubarões se aproximem de águas rasas, especialmente nos dias em que a água se encontra turva. Isto porque, nesta região os tubarões procuram abrigos para a reprodução e alimentos naturais como peixes e tartarugas. Nestas ocasiões, os tubarões não conseguem distinguir entre o alimento e o ser humano e podem acidentalmente ocasionar mordidas. Da mesma forma, por instinto de proteção durante o período de reprodução, os tubarões tendem a ficar mais agressivos e acabar ocasionando os incidentes.

O fato destes relatos estarem ocorrendo de forma crescente, não significa que todas as espécies de tubarões podem ocasionar incidentes. Além disso, não são todas as praias de Pernambuco onde existem riscos de incidentes. Pernambuco continua possuindo parte das mais belas praias do país e recomendamos que se busque informações sobre os riscos em cada localidade. Sempre que houver normas ou proibições, em hipótese alguma estas devem ser descumpridas e o mergulho não é recomendado.

Reforçamos que, devido à sua importância ecológica, a sociedade deve agir para proteger esses importantes animais e colaborar com as orientações dadas pelo corpo de bombeiros e guardas municipais de não usar o mar de áreas de risco para banho ou prática de esportes náuticos.

O ataque dos humanos aos tubarões, assim como a caça a estes animais não é uma solução para o problema que se apresenta. Os maus tratos aos animais, seja qual for a espécie, é proibida por lei (Lei nº 9.605 de 12/02/1998) e deve ser coibida pela polícia, que deverá adotar as medidas cabíveis em cada caso. A própria tentativa de interagir com o tubarão para ferir ou matá-lo pode aumentar o risco de incidentes, levando a consequências graves para as pessoas, desde a amputação de membros até a morte. As medidas a serem adotadas devem ser realizadas pelos órgãos públicos competentes e a população ficar atenta às proibições de uso de praia em áreas de risco.